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Se a IA faz o trabalho do júnior, quem forma o sênior?

Foto: Atlantic Ambience / Pexels

14 de julho de 2026 · 5 min de leitura · Método

Se a IA faz o trabalho do júnior, quem forma o sênior?

A IA automatizou as tarefas que formavam o advogado júnior. Formar julgamento agora exige redesenhar o estágio, não cortá-lo.

Por Eduardo Tedesco Castamann

Quem forma o sênior é o mesmo escritório que hoje é tentado a economizar o júnior. Por décadas o novato aprendia o ofício fazendo o trabalho de volume: pesquisa de jurisprudência, primeira minuta, leitura de contrato. A IA generativa automatizou justamente essas tarefas. Só que elas nunca foram o objetivo — eram o meio pelo qual se aprendia julgamento.

A resposta, então, não é cortar o estágio. É redesenhá-lo: dar ao júnior, cedo e sob supervisão, a decisão que a máquina não toma. Como advogado (OAB/RS 81.955), mestre em Direito e professor de IA aplicada à advocacia, vejo o risco e o caminho lado a lado.

Por que a IA ameaça a formação do advogado júnior?

A pirâmide da advocacia é o modelo em que uma base larga de juniores faz o trabalho repetitivo e, fazendo, se forma. A IA mira exatamente esse degrau.

Em um painel de advogados publicado pela Utah Business em 13 de julho de 2026, Bob Babcock resumiu o dilema: "como se leva o júnior de zero a seis ou sete anos de experiência sem ele arar o campo?". No mesmo painel, Brent Baker alertou que o risco é o júnior "não estar aprendendo — estar terceirizando o pensamento crítico".

O alerta já é brasileiro. Em 12 de junho, o advogado Ricardo Tosto afirmou à ConJur que "a consultoria mais básica será toda feita por IA" e que "já estamos num momento horrível para a carreira jurídica". No dia seguinte, a ConJur falava em "fim da advocacia inflada" — o fim do modelo estruturado como se a produção jurídica dependesse só de horas humanas em tarefas repetitivas.

Os números confirmam a compressão. A Baker McKenzie cortou de 600 a 1.000 vagas em fevereiro de 2026 citando IA, o maior corte já atribuído à tecnologia no setor. E as 100 maiores operações jurídicas contrataram 4.613 advogados de nível inicial no último ano — queda de 22% ante 2024.

Como formar julgamento quando a máquina faz a tarefa?

Redesenhar a formação é inverter a ordem: o júnior deixa de ser executor e passa a verificador desde o começo. Na prática, isso cabe em três movimentos:

  • Decisão, não digitação. Dá ao iniciante cedo o que a máquina não faz: escolher a tese, achar o furo no fato, ver onde o precedente não cola.
  • Rascunho para criticar. A saída da IA é primeiro rascunho, não resposta final. O júnior aprende criticando a máquina, não copiando — como dirigir, em que o carro automático não ensina a ler a estrada.
  • Verificação primeiro. Conferir deixa de ser o último passo e vira a primeira competência. Quem sabe onde a ferramenta erra é quem a domina.

Há quem já esteja fazendo isso com dinheiro. A Latham criou uma "AI Academy" com crédito faturável para o treino do associado, e a Ropes & Gray liberou 400 horas anuais dedicadas a IA em vez de trabalho de cliente.

O fundo do argumento é antigo: prática sem teoria vira tecnicismo cego — resolve, mas não sabe por quê. E o tecnicismo cego ganhou uma versão nova: copiar a saída da IA sem entender. Formar é justamente cortar esse caminho.

Quanto a pirâmide comprimida já custa?

O custo do talento não sumiu com a IA — ele migrou. Apesar de todo o investimento em automação, os salários iniciais em Big Law subiram: a Milbank levou o inicial a US$ 235 mil (topo de US$ 455 mil), e 45 bancas iniciam associados em US$ 225 mil, segundo a Bloomberg Law de 11 de junho.

O gargalo mudou de lugar, não desapareceu. Mais de 16 bancas recrutam diretores de IA por até US$ 440 mil e não acham candidato — o perfil quase não existe. Enquanto isso, dados do MIT indicam que só 23% das funções têm automação economicamente viável hoje; 77% seguem mais baratas com humanos.

Há otimistas. Danny David, do Baker Botts, disse em 1º de julho que a IA "é a melhor coisa que já aconteceu para a carreira da próxima geração". Talvez. Mas isso só se cumpre se o degrau de entrada for redesenhado — não apagado.

Perguntas frequentes

A IA vai acabar com o emprego do advogado júnior? Não do jeito que o medo sugere. O emprego jurídico está em máxima histórica; o que muda é a natureza do trabalho de entrada, que deixa de ser execução repetitiva e passa a verificação, curadoria e julgamento precoce. O posto não some — muda de conteúdo.

Cortar a turma de estagiários não é economia? É economia imediata e visível, com conta defasada e invisível. Sem juniores formados no volume, em alguns anos faltam plenos e sócios para os casos complexos que a IA não resolve. É o pipeline que não leva a lugar nenhum.

Isso é só problema de Big Law americana? Não. A base da pirâmide brasileira faz consulta simples, pesquisa e minuta básica — exatamente o que a IA acelera. A OAB ampliar cursos de IA nas Escolas Superiores da Advocacia é o reconhecimento institucional de que a formação precisa mudar aqui também.

Como o júnior se torna insubstituível? Dominando o que a máquina não faz: escolher a tese certa, achar o furo no fato, saber onde a ferramenta erra. Verificação e julgamento não se automatizam — e ficam mais valiosos quanto mais a IA acelera o resto.


Este conteúdo foi produzido com auxílio de inteligência artificial e revisado por Eduardo Tedesco Castamann, advogado (OAB/RS 81.955).