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Por que o advogado deixou de ser pago pelo que produz (e passou a ser pago pelo que julga)

Foto: Diana ✨ / Pexels

01 de julho de 2026 · 4 min de leitura · Método

Por que o advogado deixou de ser pago pelo que produz (e passou a ser pago pelo que julga)

A IA comoditizou o trabalho jurídico rotineiro e travou no julgamento. O valor migrou — e o advogado precisa migrar o preço junto.

Por Eduardo Tedesco Castamann

O advogado deixou de ser pago pelo que produz e passou a ser pago pelo que julga. A razão é econômica e ficou nítida em junho de 2026: a inteligência artificial dominou o trabalho jurídico rotineiro — revisão de contrato, pesquisa, minuta padrão — a ponto de comoditizá-lo, mas continua rachando no raciocínio complexo. Um benchmark da Percipient, corrigido por advogados com mais de 25 anos de banca, mostrou que nas tarefas rotineiras nove de dez modelos de IA ficam dentro de oito pontos uns dos outros; já na análise de raciocínio complexo a diferença abre até 37 pontos. Traduzindo: quem cobra pela produção da peça compete com custo marginal quase zero. O valor migrou para o julgamento, a interpretação e a responsabilidade. E é ali que tu precisas te reposicionar agora.

O que significa dizer que a IA comoditizou o trabalho jurídico rotineiro?

Comoditização é o processo pelo qual um serviço perde diferenciação e passa a ter preço puxado pelo custo de produção — que, com IA, tende a quase zero.

Foi o que a Conjur descreveu em 2 de junho, no artigo "A torre, a muralha e a conta da eficiência", de Luiz Gustavo da Silva. Quando petições, cálculos e teses passam a ser produzidos em escala industrial por sistemas, o serviço se comporta como qualquer mercadoria.

O texto recupera um conceito preciso, a "elasticidade da eficiência jurídica": o ganho interno da IA não vira ganho do sistema. E deixa uma frase que todo advogado deveria colar na parede: "volume não é cidadania."

As tarefas que a IA já faz por preço de commodity são conhecidas:

  • Revisão de contratos e extração de cláusulas padrão.
  • Pesquisa de jurisprudência e legislação.
  • Minutas repetitivas e peças de massa.

Cobrar por isso é entrar numa corrida para o fundo.

Por que o julgamento é o que a IA ainda não alcança?

Julgamento jurídico é a capacidade de decidir sob incerteza e responsabilidade — escolher a tese, medir o risco e responder pela consequência.

É exatamente onde os modelos divergem. O benchmark da Percipient (22 de junho) mostrou 37 pontos de diferença entre modelos na análise de cobertura de seguro, um problema que exige interpretação, não geração de texto. Como resumiu Chad Main, fundador da Percipient, a próxima fase será vencida por sistemas "que raciocinam melhor, não que geram texto mais rápido".

A Artificial Lawyer, no mesmo dia, reforçou o ponto: identificar a cláusula não basta se a diretriz exige um direito de cessão incondicional. O genérico acha o tópico; o julgamento aplica o padrão preciso.

E há um limite que não é técnico, é jurídico. O desembargador Luiz Paulo Araújo Filho, presidente do TRF-2, escreveu em 23 de junho que "a inteligência artificial não substitui o juiz" e que "a responsabilidade pelas decisões permanece integralmente" com o humano. Onde há liberdade, patrimônio e dignidade em jogo, a assinatura tem dono.

Como o advogado se reposiciona da produção para o julgamento?

Reposicionar-se é deslocar o preço e a energia daquilo que a IA faz barato para aquilo que só tu fazes.

Na prática, quatro movimentos:

  • Para de ancorar o honorário na produção da peça.
  • Cobra pela estratégia: qual tese, qual risco, qual acordo.
  • Torna-te o revisor-juiz da IA, não o concorrente dela.
  • Escolhe menos casos e responde por eles com autoridade.

O gargalo, aliás, nunca foi o modelo. Um levantamento sobre IA nas empresas (MarketScale, 25 de junho) mostrou que apenas uma em cada cinco organizações tem governança madura para IA agêntica, e que 37% usam a tecnologia de forma superficial. O que separa quem extrai valor de quem não extrai é a camada humana: governança e julgamento.

Na formação que conduzo com advogados, é o que mais repito: a IA não é o teu concorrente, é o teu estagiário mais rápido — e todo estagiário precisa de alguém que revise, julgue e assuma a responsabilidade. Esse alguém és tu, e é aí que mora o teu preço.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial vai substituir o advogado? Não no que importa. A IA comoditizou o trabalho rotineiro, mas continua divergindo no raciocínio complexo e não pode assumir responsabilidade jurídica. O advogado que se reposiciona no julgamento e na confiança fica mais valioso, não menos — só muda o que ele vende.

Se a IA faz o trabalho rotineiro, como o advogado júnior aprende? É um risco real. Em 30 de junho, o artigo "O apagão jurídico", na Migalhas, alertou que automatizar as tarefas juniores erode a formação do julgamento crítico. A saída é treinar o júnior para revisar e criticar a IA desde cedo, não só para produzir.

Comoditizar o serviço não amplia o acesso à justiça? Nem sempre. Produzir mais barato pode ser só redistribuição de margem, não acesso real, como alerta a Conjur. E escalar produção sem supervisão vira passivo de risco: teses genéricas rejeitadas, multas e dano reputacional. Barato de produzir não é, por si, mais valor entregue.

Vale a pena investir na "IA mais inteligente" do mercado? Depende da tarefa. Para o rotineiro, os modelos empataram — escolhe o mais barato e integrado. Para o raciocínio complexo, o que importa é o teu julgamento sobre a saída, não o modelo. Pagar caro onde é commodity é desperdício.


Este conteúdo foi produzido com auxílio de inteligência artificial e revisado por Eduardo Tedesco Castamann, advogado (OAB/RS 81.955).