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Paradoxo de Jevons: por que a IA faz o mercado jurídico crescer, não encolher

Foto: wesley oliveira / Pexels

16 de julho de 2026 · 5 min de leitura · Método

Paradoxo de Jevons: por que a IA faz o mercado jurídico crescer, não encolher

A IA barateia o trabalho jurídico e destrava a demanda reprimida. O mercado tende a crescer — mas vai para quem se reposiciona.

Por Eduardo Tedesco Castamann

A inteligência artificial tende a fazer o mercado jurídico crescer, não encolher. O motivo tem nome: paradoxo de Jevons. Quando a tecnologia barateia a produção de um recurso, o consumo dele costuma aumentar, não diminuir. No Direito, a queda no custo de produzir uma pesquisa, uma primeira minuta ou uma revisão de contrato destrava a demanda reprimida — os milhões de conflitos que hoje ninguém leva adiante porque o custo não compensa.

O sócio-presidente da Lowenstein Sandler, Gary Wingens, resumiu em junho de 2026: à medida que o trabalho fica mais rápido e barato, os clientes compram mais dele, não menos. Mas a expansão não é automática nem gratuita. Ela vai para quem se reposiciona, e parte do volume liberado é litígio de baixa qualidade.

O que é o paradoxo de Jevons aplicado ao Direito?

O paradoxo de Jevons é o princípio econômico segundo o qual ganhos de eficiência no uso de um recurso aumentam o consumo total, em vez de reduzi-lo. No século XIX, máquinas a carvão mais eficientes elevaram a demanda por carvão, não a pouparam.

No trabalho jurídico, o raciocínio é direto: se a IA derruba o custo de produzir uma peça, o preço do serviço cai; e quando o preço cai numa demanda contida por custo, o volume dispara. Como colocou a Artificial Lawyer em junho de 2026, à medida que o custo de acessar serviços jurídicos despenca, o volume de demanda tende a disparar.

Por que a IA aumenta a demanda por trabalho jurídico?

A demanda reprimida é o coração do argumento: a demanda que existe, mas não se realiza porque o custo, o prazo ou a incerteza não compensam. A pessoa deixa para lá.

No Brasil, a represa é enorme. Segundo o CNJ, foram 39,4 milhões de novos processos e 80,6 milhões pendentes em 2024 — sem contar o que nunca chega ao Judiciário. Como sintetizou o blog da Looplex: se o custo de exercer direitos cai, mais direitos passam a ser exercidos.

O efeito já aparece na ponta. Wingens relata um projeto que um cliente havia engavetado pelo preço e que, com apoio de IA, teve o custo esperado reduzido em cerca de 70% — e voltou para a mesa.

Quais frentes de trabalho a IA está criando?

A IA não só destrava demanda antiga — inaugura trabalho novo. Compliance de inteligência artificial, litígio sobre decisões algorítmicas e governança de modelos não existiam há três anos. Foi a difusão da IA e a regulação que ela puxou — o AI Act europeu e, no Brasil, o PL 2338 — que criaram essa demanda.

O emprego é o teste. Nos Estados Unidos, o setor jurídico criou 5.100 vagas em junho de 2026 e chegou a um recorde de 1.243.500 postos, puxado por litígio, compliance e trabalho ligado a IA.

A expansão do mercado é garantida?

Não — e é honesto dizer. O relatório de 2026 da Thomson Reuters atribui o crescimento de demanda de 2025 à incerteza regulatória e geopolítica, não à IA, e alerta que a eficiência pressiona a margem: cerca de 90% do faturamento ainda vem da hora cheia. Fazer mais e faturar menos é um desfecho possível para quem não muda o preço.

Há ainda o lado sombrio da demanda induzida. Os professores Dierle Nunes e Camila Bambirra descreveram, em julho de 2026, a advocacia por impulso: o cliente chega com a tese gerada por IA achando o caso resolvido porque o texto parece bom. No Direito, aparência de técnica não é técnica. Nos Estados Unidos, a litigância sem advogado subiu para 16,8%, o texto com marca de IA foi de quase zero a 18%, e as movimentações cresceram 158% — sem melhora no resultado.

O mercado tende a crescer, mas o crescimento é disputa, não destino. Como resume a Looplex, o advogado não será substituído pela IA — será substituído por outro advogado. Com a barreira de custo mais baixa, ele deixa de ser o gargalo da redação para virar o filtro de prudência. É a leitura que faço, como advogado inscrito na OAB/RS sob o número 81.955: o valor sobe onde a máquina só entrega aparência.

Perguntas frequentes

A IA vai acabar com os empregos na advocacia? Os dados de 2026 apontam o contrário: o emprego jurídico americano bateu recorde, puxado por compliance, litígio e trabalho ligado a IA. O que muda é a composição — cai a demanda por tarefa repetitiva e sobe a por julgamento e supervisão.

O que é demanda reprimida no Direito? É a demanda que existe mas não se realiza porque o custo, o prazo ou a incerteza não compensam. São os conflitos que a pessoa deixa para lá. Quando a IA derruba o custo de produzir trabalho jurídico, parte dessa represa se torna acionável.

O paradoxo de Jevons vale para o Brasil? Tende a valer com mais força. O Brasil tem uma das maiores demandas reprimidas do mundo — 80,6 milhões de processos pendentes e milhões de conflitos fora do sistema. Barreira de custo alta e demanda contida são as condições em que o paradoxo opera.

Como o advogado se posiciona para crescer com a IA? Reposicionando três coisas: o preço (fora da hora cheia), a entrega (triagem e minuta automatizadas) e o próprio papel (do redator ao curador de mérito). E abrindo frentes novas, como compliance e litígio de IA.


Este conteúdo foi produzido com auxílio de inteligência artificial e revisado por Eduardo Tedesco Castamann, advogado (OAB/RS 81.955).