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O cliente vai fazer sozinho o trabalho jurídico com IA? O que sobra para o escritório

Foto: Sonny Sixteen / Pexels

09 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Método

O cliente vai fazer sozinho o trabalho jurídico com IA? O que sobra para o escritório

Em parte, já faz: a AT&T leva pesquisa e minutas para dentro com IA. Ao escritório fica o trabalho de decisão. Veja o que muda para quem atende empresas.

Por Eduardo Tedesco Castamann

Sim: o cliente já está fazendo sozinho parte do trabalho jurídico que mandava ao escritório, e a inteligência artificial é o que torna isso viável. Em 8 de outubro de 2026, a AT&T anunciou parceria com a OpenAI para levar fluxos de IA a todo o seu departamento jurídico.

A base é uma equipe interna criada em janeiro para absorver trabalho que ia para escritórios externos. O que sai do escritório é o trabalho de volume: pesquisa, revisão de documentos e primeiras minutas. O que fica é o trabalho de decisão: estratégia, negociação atípica, risco fora do modelo.

Quem advoga para empresas não precisa disputar com a ferramenta do cliente. Precisa saber dizer o que ela não faz.

O que a AT&T anunciou, e o que ela não disse?

O anúncio da AT&T é a parceria mais explícita, até aqui, entre uma grande empresa e um laboratório de IA para reorganizar o próprio jurídico. A equipe interna, o LegalEdge, cuidou de cerca de 100 casos nos primeiros seis meses, segundo o anúncio reproduzido pela Artificial Lawyer.

Em declaração à imprensa, o diretor jurídico David McAtee disse que a lista de cerca de 30 escritórios nacionais pode cair para 18 a 20 em dois anos, sem meta fechada, e que os escritórios que adotarem IA podem receber mais trabalho.

O que ninguém disse é quanto a empresa economizou. Nenhuma fonte mede isso, e o próprio anúncio insiste que "o julgamento jurídico continua humano".

Os números do setor mostram uma tendência ou um caso isolado?

A tendência é de redistribuição do trabalho jurídico, não de mão única. Segundo a Association of Corporate Counsel, 85% dos departamentos jurídicos já usam IA, mas a execução totalmente autônoma fica abaixo de 5% das tarefas. Em 73% das empresas, quem aprova a ferramenta é outra área, em geral a de tecnologia.

Na reunião anual da ACC, executivos relataram fazer em minutos levantamentos que escritórios orçavam em dezenas de milhares de dólares, segundo o ABA Journal. São relatos, não medições.

E a Disney anunciou o oposto da AT&T: jurídico interno "muito menor" e terceirização ampliada. A mesma tecnologia leva o trabalho para lados diferentes.

Como isso já aparece na advocacia brasileira?

O contencioso de massa é onde a internalização brasileira já está instalada. Em artigo no Migalhas, o advogado Danilo Aragão Santos descreve plataformas dentro do jurídico do cliente que produzem a primeira versão da defesa: "A máquina é do cliente, a esteira é do cliente, o padrão é do cliente."

O Estatuto da Advocacia tem regra para esse cenário desde 1994. O art. 34, V, proíbe assinar escrito que o advogado não fez nem ajudou a fazer. Homologar sem colaborar não é atalho: é risco para quem assina.

E o trabalho que entra na empresa continua sendo advocacia. Consultoria jurídica é privativa de advogado (art. 1º, II), e a relação de emprego não reduz a independência técnica (art. 18).

O que o escritório que atende empresas pode fazer agora?

Redesenhar a relação com o cliente é a resposta prática à internalização, e não baixar a hora. Na leitura de Eduardo Tedesco Castamann, advogado (OAB/RS 81.955) e mestre em Direito, o movimento devolve o escritório ao centro do ofício: o cliente compra menos volume e mais julgamento.

  • pergunta ao cliente o que o jurídico interno já faz com IA;
  • separa, no teu trabalho, o que é volume e o que é decisão, e refaz a proposta em torno da decisão;
  • prevê no contrato o tempo de revisão da minuta que vem do cliente e registra o que foi conferido;
  • combina por escrito qual ferramenta se usa, onde ficam os dados e quem responde pelo erro.

Perguntas frequentes

A IA vai fazer as empresas pararem de contratar escritórios?

Não há dado que sustente isso. A AT&T leva para dentro o trabalho de volume, e o diretor jurídico disse que a lista de cerca de 30 escritórios pode cair para 18 a 20 em dois anos, sem meta fechada. A Disney anunciou o caminho oposto: jurídico interno menor e mais terceirização. Muda o trabalho que continua sendo comprado.

Que tipo de trabalho o jurídico interno está levando para dentro?

O trabalho de volume que costumava formar o associado júnior: revisão de documentos, pesquisa, primeiras minutas e levantamentos. Segundo a ACC, a IA nos departamentos jurídicos se concentra em revisão de contratos, minutas e acompanhamento regulatório, e a execução totalmente autônoma fica abaixo de 5% das tarefas. Estratégia e julgamento seguem com advogados.

Assistente de IA que responde dúvida jurídica de funcionário é permitido no Brasil?

Não há decisão brasileira recente sobre isso. Consultoria jurídica é atividade privativa de advogado, pelo art. 1º, II, do Estatuto da Advocacia. Por isso, a leitura mais segura é tratar o assistente como ferramenta sob a responsabilidade de um advogado inscrito, que define o que ele responde sozinho e o que encaminha a uma pessoa.

O escritório pode assinar a minuta que vem pronta da plataforma do cliente?

Pode assinar o que fez ou em que colaborou de verdade. O art. 34, V, do Estatuto considera infração disciplinar assinar escrito que o advogado não tenha feito ou em que não tenha colaborado. Na prática, isso pede tempo de revisão previsto no contrato e registro do que foi conferido antes do protocolo.


Este conteúdo foi produzido com auxílio de inteligência artificial e revisado por Eduardo Tedesco Castamann, advogado (OAB/RS 81.955).